A crise mundial provocou um debate público com duas grandes vertentes. De um lado, economistas ortodoxos (elitistas) continuam a prescrever medidas de austeridade como solução para os problemas econômicos na Europa e nos EUA. De outro, economistas heterodoxos (populistas) defendem a ampliação dos gastos públicos, a re-estruturação da dívida dos Estados, e medidas de distribuição de renda (como a tributação progressiva) para a retomada do crescimento.
Socialmente, esta divergência de perspectivas é um reflexo de conflitos entre classes sociais e frações do capital, em torno de como será dividido o ônus da crise, ou, em outras palavras, sobre quem pagará a conta. Enquanto a receita ortodoxa joga o encargo da crise desproporcionalmente em cima dos trabalhadores e em benefício do capital financeiro, a receita heterodoxa protege as camadas mais pobres e força as elites financeiras a pagarem parte da conta. Em vista disso, a segunda solução parece melhor, mas, na realidade, ela também sofre de uma séria limitação: apenas transfere para a próxima geração a responsabilidade por outro problema: o capitalismo e as questões ambientais.
A saída heterodoxa, subscreve o princípio da acumulação incessante de capital, que define o sistema capitalista mundial desde suas origens nas cidades-Estado italianas por volta do século XV. Para essa corrente, a solução é gastar mais para produzir e empregar mais. Isso em paralelo a políticas sociais que garantam a extensão dos benefícios à população mais pobre, medida essa, que é a tomada pelo governo brasileiro atual, que vê na industrialização e mercado interno e no trabalho, a solução para diminuição das diferenças sociais . Este caminho pode trazer prosperidade econômica nos próximos dez anos e reduzir desigualdades sociais, mas está longe de representar para o mundo um modelo de desenvolvimento sustentável no longo prazo.
Porem há um receio global nas propostas para essa solução da crise americana, baseada em estimular o governo e as famílias americanas a gastarem mais. Isso significa que mais famílias vão trocar seus sedans 2004 por caminhonetes de 2011, clientes da Apple passarão dos iPhones 4 para os iPhones 4S, e, mais do que nunca, vão usar copos, talheres e pratos descartáveis à vontade. deixa de fora duas questões importantíssimas: o caráter hierárquico do sistema econômico mundial e a sustentabilidade ambiental, esse último considerado já fora dos padrões aconselhados principalmente aos americanos estaria se agravando com mais uma onda de consumo fácil.
Em relação ao caráter hierárquico do sistema econômico mundial , há um sério problema em tomar como dado que a ampliação dos níveis médios de consumo nos países centrais também já elevados seja condição para a manutenção do crescimento em países pobres, que realmente precisam elevar seus padrões de vida. É como se uma empregada doméstica precisasse torcer para o patrão ganhar ainda mais dinheiro para ela, eventualmente, receber um salário mais alto. Esta é uma contradição que não pode passar em branco. Não podemos continuar prescrevendo o crescimento do bolo e deixar a divisão das fatias para depois.
Uma das razões para isso ocorrer, conforme apontam estudos, é a existência de uma hierarquia tripartite no sistema capitalista mundial que tem se reproduzido pelo menos desde o século XIX. No topo está um grupo pequeno de países centrais, no meio uma “semi-periferia” de renda média e, na base, a periferia onde se encontra a maior parte da população mundial. A economia global cresce como um todo, mas as disparidades entre as regiões se mantêm relativamente inalteradas.
Na última década, o crescimento acelerado na China e na Índia tem desafiado essa situação, mas ainda não são claros seus impactos sobre países de renda média (como o Brasil) ou baixa (como os africanos). Portanto, uma solução superior à crise precisa incluir mecanismos de governança global capazes de tornar o padrão de crescimento mundial mais equitativo, onde os países não desenvolvidos possam obter ganhos reais, junto com um desenvolvimento sustentável.
Parte da resposta pode estar na cooperação entre países do Sul ou na reinvenção de organizações internacionais, como o FMI, o Banco Mundial, e a ONU. Não podemos pensar apenas em crescimento, pois há um custo, especialmente o ambiental, que não deve ser gasto se os benefícios vão continuar a ser proporcionalmente concentrados nos países centrais.
Isso nos leva à questão ecológica. No Brasil, há o debate sobre a usina hidrelétrica de Belo Monte. Nos Andes, a discussão entre o desenvolvimento baseado na exportação de recursos naturais e modos alternativos de vida defendidos por movimentos indígenas (o “buen vivir”). Por meio deste debate, precisamos deixar o paradigma do crescimento a qualquer custo e implementar regras que forcem a acumulação de capital a internalizar seus custos de reprodução (ambientais, no caso). A vida humana provavelmente não seria possível no planeta se o “American way of life” fosse estendido a todos os habitantes do mundo. Não há planeta finito que aguente.
Para resumir estes problemas com uma metáfora, imagine que a economia capitalista mundial é um carro muito potente, mas que se encontra momentaneamente “afogado”. O keynesianismo vulgar sugere um empurrão para que o automóvel volte a andar depressa. Em contraste, proponho que aproveitemos a situação do carro e nos indaguemos: “Esse veículo consome muita gasolina, não dá para ser mais econômico?” e “tem um monte de gente sentada apertada no banco de trás e só duas pessoas confortavelmente sentadas na frente; isso é justo?”.
Essas questões são de difícil solução, mas precisam estar no centro e não nas margens do debate. Com uma versão vulgar de keynesianismo, só estaremos empurrando com a barriga (para as próximas gerações) um problema que devemos resolver. E no processo de construir um mundo mais igualitário e mais verde, reinventaremos o capitalismo, que, ao final, talvez nem capitalismo seja mais.

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